Colcha de Retalhos

"O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa." Holderlin

Textos


 Algumas histórias ancestrais são fragmentos presentes da minha infância. Narrativas que elaborei com os anos até sentir a necessidade de contextualizá-las entre as partidas e chegadas. Navegar entre tempos históricos e sentir as ondas das contingências molhar o campo das escolhas. No sul de Minas Gerais, encontrei José Rotundo, primo da minha avó, e pude colher os frutos sazonais da genealogia.

 

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 Julho de 2007

Giuseppe Rotundo lapidou minhas imaginação com a realidade talhada em suas lembranças entre o seu nascimento em Sasso di Castalda – Itália em 1920 e de sua travessia para o Brasil em 1933.

As suas palavras recriavam as trilhas do pequeno povoado lucano e me apresentavam uma paisagem outonal com a presença de diversos parentes distantes descritos com a emoção ainda infantil do ancião. Giuseppe aceitou os ventos da emigração no interstício entre guerras. Era ainda um menino quando ancorou sua vida no Brasil distante do primeiro núcleo familiar. Uma travessia prematura e solitária atendendo a uma carta de chamada do tio Rocco. Giuseppe sabia que não poderia intercalar destinos e que, entre os portos, o de partida seria sempre a presença sonolenta da infância a acompanhar a construção do homem imigrante sobre os alicerces do destino.

As circunstâncias da guerra repercutiram em seu nome que assumiu a grafia em português. Giuseppe tornou-se José.

Seu relato era a consistência da pedra talhada com os anos. Suas palavras embriagavam o corpo da minha imaginação e redesenhavam reticências entre alguns silêncios. José Rotundo alimentou minha nostalgia genética com o sabor maturado do tempo e me impulsionou a travessia em novembro de 2007.

 

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 Retornei com a bagagem repleta de fotografias, relatos rabiscados em italiano num pequeno caderno e um amaro lucano (bebida típica da Basilicata). Encontrei tio José, seus filhos e netos e pudemos compartilhar as memórias decantadas. Entre os retratos havia uma reprodução de um retrato antigo de sua mãe. Ele, com um sorriso doce e uma voz quase infantil, afirmou: “É minha mãe... Faz muito tempo... Eu era criança... Mas é minha mãe... Minha mãe...”

Percorremos todas as ruas, entramos nas igrejas, no cemitério, nas casas da infância... José Rotundo mostrava os atalhos do tempo com a realização do homem que se constrói entre o imaginário e o real. A poesia do seu estar no mundo é a narrativa do herói dos dois mundos.

 

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 Maio de 2013

Os últimos dias desenrolaram-se entre a fantasia e a realidade. Uma aproximação de mundos com a conjugação da vida nos mais diversos tempos e modos. Quando as lembranças se reconhecem como imagens e sons, tornam-se presenças atemporais.

Giuseppe sentiu o calor das mãos de sua mãe o agasalhando nas noites frias de janeiro e o acalentando ao redor da lareira. “C'è ancora il fuoco.” Sentiu a inquietação ao perceber os passos cansados do pai ao retornar da jornada no campo em época de colheita. Provou as salgadas lágrimas do avô ao se despedir na Piazza del Popolo ao tempo que ouviu seu nome ecoar pelas ruas do paese lucano entre os passos da procissão de San Rocco.

As presenças do primeiro porto se misturam com as encontradas no destino. Ancorado na imortalidade de ser pai, José é um oceano de vivências, um mar de línguas e de amores, redescoberto na lembrança de sua travessia quase infantil.

Com 93 anos, longe das palpitações, Giuseppe sente o coração enfraquecer como uma chama que bruxuleia ao consumir o carvalho... Pressente que é hora de uma nova travessia e se despede. Sente medo de partir de madrugada e embala sua última noite com uma ópera de Caruso. A voz ganha força com a derradeira agonia e preenche os acordes do seu coração para mais uma noite.

 

José Rotundo, outrora Giuseppe, partiu com as primeiras luzes na manhã de 14 de maio de 2013.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 17/06/2013
Alterado em 18/06/2013
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